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A morte que eu vivi
Coles
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A morte que eu vivi in Ottawa, ON
By None
Current price: $7.99


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Não pretendo dizer quem fui nem que nome eu tive. De nada adiantará qualquer tentativa de apresentação já que sou imaterial, não tenho mais o fôlego da vida, não existo mais. Morri há um mês, três dias e seis horas e desde então venho inexistindo, no vácuo que há entre aqueles com quem convivi de perto por pouco mais de quarenta e cinco anos. Para ser bem exato, foram dezesseis mil quatrocentos e setenta dias e dezoito horas, em um corpo com vida e numa coexistência terrena em que, na primeira e maior parte, os dias mostravam-se pacíficos e depois foram se complicando por um longo período para, no final, verem-se transformados em dias turbulentos, raivosos e fatais. Contudo, para mim o tempo não mais se conta, porque não sou um ser vivo, sou apenas um sopro energizado e ninguém é capaz de me ver ou de me sentir, embora eu consiga ver a todos com quem convivi quando eu era matéria e tinha um corpo. Posso assistir à continuidade da existência de cada um como se eu ainda estivesse entre eles e, na verdade, pelo menos para mim, eu continuo a estar no meio deles, apesar de não coexistir e eles não serem capazes de me ver ou de perceber minha presença. Confesso que, ao longo da vida que vivi, eu cheguei a ter vontade de ser invisível pelo menos por um dia, para estar entre as pessoas sem que elas se apercebessem. Eu teria podido descobrir segredos inconfessáveis, invadir intimidades segredadas.
Não pretendo dizer quem fui nem que nome eu tive. De nada adiantará qualquer tentativa de apresentação já que sou imaterial, não tenho mais o fôlego da vida, não existo mais. Morri há um mês, três dias e seis horas e desde então venho inexistindo, no vácuo que há entre aqueles com quem convivi de perto por pouco mais de quarenta e cinco anos. Para ser bem exato, foram dezesseis mil quatrocentos e setenta dias e dezoito horas, em um corpo com vida e numa coexistência terrena em que, na primeira e maior parte, os dias mostravam-se pacíficos e depois foram se complicando por um longo período para, no final, verem-se transformados em dias turbulentos, raivosos e fatais. Contudo, para mim o tempo não mais se conta, porque não sou um ser vivo, sou apenas um sopro energizado e ninguém é capaz de me ver ou de me sentir, embora eu consiga ver a todos com quem convivi quando eu era matéria e tinha um corpo. Posso assistir à continuidade da existência de cada um como se eu ainda estivesse entre eles e, na verdade, pelo menos para mim, eu continuo a estar no meio deles, apesar de não coexistir e eles não serem capazes de me ver ou de perceber minha presença. Confesso que, ao longo da vida que vivi, eu cheguei a ter vontade de ser invisível pelo menos por um dia, para estar entre as pessoas sem que elas se apercebessem. Eu teria podido descobrir segredos inconfessáveis, invadir intimidades segredadas.

















